A dor se foi e com ela toda perturbação que habitava em minha escrita. Ficou o vazio. Ficou o frio. Ficou a incerteza. Ficou o nada. E a escrita também já não é nada. Já não alivia. Já não conforta. Já não canta meu verdadeiro Eu. Perdeu a razão de ser. Perdeu o sentimento. Não fala mais de mim. De mim... Não há mais nada para ser dito. Já não há mais nada aqui dentro.
Hoje ouvi Ólafur. Não chorei. Não sorri. Apenas ouvi, sim, apenas ouvi. Não fui capaz de senti-lo. Há algum tempo que já não sinto as canções. Que já não escrevo minha dor. Que já não choro.
A vida está seguindo. Há dias em que sorrio bastante. Encontro os amigos. Sinto abraços. Continuo doente. Sinto tantas dores. Dores físicas. Nada mais me afeta a alma. Creio que consegui o que tanto tentei. Neguei toda a carência que sinto. Congelei-me. E agora que estou assim, congelada, protegida de toda a dor, não sei ao certo se isso é bom.
E agora que me ponho a pensar sobre isso, não sei se isso é minha cura ou o estágio mais avançado desse câncer que habita em mim durante toda essa eternidade.
Outra tarde conversava com uma pessoa pelo Messenger, e quando ela perguntou-me sobre mim, sobre minha dor, eu apenas disse que: Quando a dor é muito intensa e insiste em permanecer em ti pelo infinito, depois de você quase morrer, ela se torna comum. Torna-se parte de ti, já não incomoda mais, no máximo, te faz derramar algumas meras lágrimas em um dia frio.
E assim tem sido. A dor já não dói mais. Nada mais dói. Ainda me pego ansiosa, por vezes nervosa. Mas isso não me desespera, não me assusta. Aqui dentro já não há medo, já não há nada. Olho pelos cantos e só vejo alguns velhos móveis esquecidos, abandonados, empoeirados. Nada além disso.
A escrita dorme profundamente e não sei se algum dia acordará. E é claro que eu poderia me trair, poderia começar a escrever uma escrita que não é minha. Uma escrita do outro, do vizinho, do estranho, do alheio. Poderia começar imitar, copiar, plagiar... Eu poderia. Poderia escolher uma escrita que fala de amor. De felicidade. Uma escrita alegre. Uma escrita cientifica que fala de História ou do Serviço Social. Poderia escrever sobre meus dias. Minhas aventuras na faculdade. Sobre o estágio. Sobre a família. Sobre os amigos... É eu poderia escrever sobre as mais diversas coisas, mas não o faço. Não sinto que devo fazer, então não o farei.
A dor está adormecida e com ela a escrita. Não cobrar-me-ei de escrever. Não quero ter uma escrita vazia. Sem nada a me oferecer. Sim, por que a minha escrita só oferece a mim. Os outros são apenas conseqüência. Minha escrita, assim como eu, é puramente egoísta. Ela não se importa com o outro. Não existe leitor. Ela apenas existi. Apenas é. Não se maquia não se enfeita não se veste. É uma escrita nua. Uma escrita feia, cruel, sincera demais. E é por isso, por ser assim tão Eu, que não posso traí-la.
Enquanto ela não acorda, ficarei com algumas imagens, alguns sons, algumas leituras. Enquanto a dor não volta a doer, irei à faculdade, assistirei às aulas, irei me preparar para a monografia. Vou respirar, vou comer, vou beber...
Anne.

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