Choveu forte, as gotas d'água molharam todo o seu lindo e feliz rosto. Desfez a maquilagem. Borrou os olhos e lábios. Só restaram apenas manchas. Os olhos pareciam sangrar. Um sangue preto de toda a sombra e lápis e delineador que usura, como de costume. A boca vermelho-paixão não voltou a seduzir com seu sorriso exuberante e tentador. De repente, no meio da festa, da chuva, da canção, dos tragos de cigarros e goles de cerveja quente, ela cansou de fingir. Parou de acenar. Parou de falar. Apenas olhou as águas calmas do rio ao lado. Viu as gotas d'água cairem cada vez mais forte. Então dançou pela última vez a canção de seu mestre, amigo, amante. Dançou. E enquanto dançou, chorou, vomitou toda a dor e loucura que sempre lhe perseguiu os dias, até mesmo os mais felizes dos dias. Dançou e chorou aquela canção maldita mais que tanto amava. Aquela que havia sido sua perdição. Acalmava a sua mente doentia, anestesiava o corpo dolorido e enlouquecia a alma. Era um preço alto a se pagar. Mas não havia outra solução. Havia? Não, não havia. Por um tempo, ela rodou todos os lugares, experimentou todas as drogas, ouviu todas as canções. Leu todas as palavras. Beijou o maior número possível de bocas. Tentou amar. Tentou ser amada. Tentou esquecer. Tentou o vestido e o chocolate. Mas nada, nada se comparava aquilo. Sim um preço alto, mas preciso. Um alívio, um único segundo de alívio. Podia ser outra pessoa. Podia sentir outra pessoa. Sentia seu amigo-amado que tanto lhe fazia falta. Sentia chover dentro de si. Gritos, lágrimas, marcas... Tudo desabando e flutuando ao se redor e ela apenas dançou e chorou. Dançou enquanto as lágrimas se camuflaram entre as gotas d'água daquela chuva de fevereiro.
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