É domingo, tarde de domingo. Está quente, exageradamente quente. E Luiza não consegue fazer nada além de ficar imóvel na frente do computador. Pensa nas milhares coisas que deveria fazer nessa tarde de domingo, mas são tantas coisas que não consegue fazer nenhuma.
Imóvel, com os olhos cansados e com o cabelo balançando ao vento quente do ventilador, Luiza está presa. Não sente nada, não pensa em nada na medida em que todos, ou quase todos, os sentimentos do mundo brigam em seu frágil, confuso e inocente coração. E todos esses pensamentos, planos, possibilidades.
Suspira fundo. Ah, se ela ao menos tivesse forças suficientes para optar por algum caminho. Mas não, nem isso ela consegue fazer nesses momentos de morte.
Os olhos estão quase fechados, pensa em chorar, mas também não consegue. Quase deitada na frente do computador, ela não consegue sentir nem pensar em nada, não consegue querer nada...
Fica durante algum tempo parada, observando apenas o jogo de cartas do computador.
Olha as fotos, surgem lembranças... Hora sorri, hora fecha os olhos, mas em uma foto em especial, fica em choque... Uma expressão nunca antes vista.
Sorri sem deixar os dentes à vista. Sente um aperto no peito. A respiração fica mais pesada. Quase que treme as mãos e quase que chora, quase... O rosto sorri, mas os olhos choram se afogam em meio a tanto sofrimento, morrem.
Fecha os olhos e respira fundo, com calma, saboreando cada sentimento que essa imagem lhe proporciona. Quem a ver, tem a certeza de que ali ela já não está. Viaja, transcende, some.
Ainda sentada, e mesmo sem fazer muitos movimentos, ela dança. Dança com aquela imagem, com aquela música que tanto lhe destrói e lhe agrada.
Pensa em pensar em algo, em ocupar a cabeça, mas não consegue, por mais que tente, não consegue pensar...
Vira de costas para o computador e a imagem, então olha pela janela. É tarde, mas faz sol da manhã. Está tudo tão claro... E a árvore a sua frente está empoeirada, precisa de um banho, mas não chove há alguns dias. É época de flores, e as flores das árvores são rosa, bem rosas, o que em nada combina com o verde empoeirado das folhas, Luiza pensa que se chovesse a árvore ficaria mais bonita, a poeira dos dias secos e tristes sumiriam, e não iria mais precisar do vento quente do ventilador.
Ao querer a chuva, Luiza recorda dos banhos de chuva que tivera durante a infância.
Sim, aqueles sem dúvidas foram os melhores dias.
Nenhuma doença além da velha gripe. Nenhum problema com os estudos, além da velha prova de ciências que tanto lhe apavorava. A maior preocupação que tinha com o dinheiro, era se no dia seguinte teria R$1.50 para o refrigerante Estrela e a pipoca da Rua de Barro.
Oh, o refrigerante Estrela era tão bom, tão barato. Luiza não consegue entender por que todos o trocaram pela Coca-Cola. Pensa que antes a Rua de Barro era bem melhor. Todos ainda eram crianças e brincavam de futebol: Travezinha; os tijolos ou havaianas marcavam a área do gol. Agora todos se esqueceram da Travezinha e ficam pela esquina fumando.
Lembra dos heróis e amigos... Todos se foram, mas Luiza continua lá, continua sentada na calçada, olhando as estrelas, continua esperando os frutos das árvores amadurecerem, continua assistindo aos desenhos animados mesmo que não tenha mais com quem comentar, continua pensando em nunca sair dali, nunca abandonar aquele lugar onde foi feliz, não suportaria a idéia de outro lugar, outras árvores... Luiza continua ali, mas agora Luiza olha para os lados e percebe que todos já foram.
E Luiza continua deitada nas sombras das árvores, ouvindo Yesterday.
Luiza está só.
Eu sonhava como a feia na vitrine, como carta que se assina em vão... (Lua e Flor)
Nenhum comentário:
Postar um comentário